• Pedro M. Lourenço

A sombra de uma escuridão


Por vezes olho para trás e pressinto a sombra de uma escuridão. Apenas uma sombra pois essa escuridão precedeu-me. Precedeu até a geração que veio antes da minha. Não obstante, essa sombra está sempre ali, algures atrás das costas, sempre à mera distância de um olhar sobre o ombro. Está sempre ali a manchar a história do século XX. 1939, 1940, 1941… 1945. Sete anos pintados a negro nas páginas dos livros de história.

É uma escuridão que habita, ainda e sempre, os recantos mais feios da alma humana. É aí, nesse buraco negro que talvez nem fundo tenha, que habita o ódio. É aí que este se mascara de racismo e xenofobia. É desse negrume que se alimenta o fascismo, esse pérfido parasita que ali se incha, como uma carraça, enquanto se empanturra do fluído negro e nauseabundo que por ali abunda.

É como crude negro a conspurcar o amarelo prístino de uma praia. Como crude negro a conspurcar o azul vivo do oceano. Sei que se esticar um dedo para lhe tocar, ele vai sentir viscoso ao toque e tresandar a um fedor de trauma, insegurança, desamor, falta de auto-estima e auto-ódio.

É um negrume que na realidade habita o âmago de todos nós. Um negrume que todos os dias temos de derrotar, não numa heróica batalha mundial pela liberdade, mas nos nossos actos e decisões do dia-a-dia. Porque 1939, 1940, cada um desses tristes anos, está sempre à distância de um passo em falso. Cabe a cada um de nós mantê-lo longe, num passado que só não deve ser esquecido para que possa ser para sempre recordado.

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