• Pedro M. Lourenço

O castelo do céu azul


Os automóveis escavavam um vale de chuva e salpicos sobre o asfalto, enquanto um mar de gotas transformava o para‑brisas num manto baço que fazia lembrar uma cascata de montanha. Por entre o movimento rápido dos limpa para‑brisas os passageiros do veículo azul entreviram o sinal verde que anunciava o seu destino, o Castelo do Céu Azul.

Saíram na saída seguinte, sob a chuva dissolvente daquela tarde de Outono. A estrada alongava‑se mas a distância para o castelo não parecia diminuir. Faltam vinte quilómetros, faltam dezoito quilómetros, faltam quinze quilómetros. A paisagem, monótona, em tons verdes e castanhos, complementava a ausência de pontos de referência na estrada. Subitamente, depois de quilómetros e quilómetros sem fim, a impossibilidade da situação confrontou os sentidos dos passageiros do automóvel azul. Era impossível terem andado tanto sem chegarem ao castelo. Tinham‑se enganado.

Enfadados pelo seu engano, eles inverteram a marcha do veículo e voltaram a percorrer a mesma estrada no sentido inverso, numa ansiosa busca por mais indicações. Pouco depois, notaram outra placa verde: “Castelo do Céu Azul 20 quilómetros”. Entreolharam‑se. No olhar de cada um a esperança de encontrar desta feita o seu destino.

Fora cinco meses antes que a sua busca começara. Ele acordara a meio da noite, transpirando suores frios e chorando como um bebé. Dos seus lábios saíram apenas quatro palavras: Castelo do Céu Azul. A partir desse dia não mais encontrou descanso pois sabia que tinha de encontrar o castelo, fosse onde fosse, fosse o que fosse, fosse como fosse. A compreensão de tudo aquilo que nunca percebera na sua vida estaria nesse castelo, mais precisamente no livro que um homem vestido de azul guardava num quarto húmido do torreão mais alto. Ele tinha de encontrar esse homem num dia de vento e chuva e tudo se tornaria claro. Era tudo o que sabia, tornara‑se tudo aquilo para que vivia.

No meio da neblina que cobria a estrada tornava‑se difícil distinguir até as luzes do carro da frente. As luzes fantasmagóricas pareciam pequenos fogos‑fátuos flutuando livremente sobre as estradas como uma procissão mágica.

No percurso da busca, encontrou‑a, a única pessoa que parecia já ter ouvido falar do Castelo do Céu Azul. Foi ela que lhe revelou que afinal o castelo era um local real localizado num país distante, cujas lendas rezavam que nunca poderia ser encontrado num dia de chuva. Depois de semanas a queimarem pestanas a ler velhos manuscritos comidos pelas traças e pelo tempo, perdidas horas sem fim a estudar velhos mapas bafientos, efectuadas dezenas de telefonemas para embaixadas e consulados, foi com grande surpresa que descobriram finalmente que esse local místico ficava a menos de quatros horas de automóvel de um grande aeroporto internacional. Mais surpreendidos ainda ficaram quando encontraram informação turística sobre o local no aeroporto e inúmeras indicações sobre como lá chegar. Parecia fácil demais. Pela primeira vez em meses ele permitiu‑se um suspiro de alívio, a sua busca estava próxima do fim.

Finalmente conseguiram ver outra placa que indicava apenas cinco quilómetros para o seu destino. O castelo estava tão próximo que pareciam poder tocar‑lhe, contudo aquela neblina impenetrável tornava impossível um vislumbre do seu objectivo.

Mas faltara‑lhe ainda um detalhe. No seu sonho profético a chuva caía copiosamente sobre o castelo, algo que curiosamente nunca ninguém tinha visto. Passearam pela região à espera de um dia de chuva, sem nunca se aproximarem do local onde ficava o castelo por medo de este perder a magia que para eles o envolvia. Apreciaram as iguarias da região e conversaram com os locais, ouvindo muitas histórias sobre o castelo, sobre como estava deserto e sobre como certamente ninguém habitava o seu torreão mais alto. Mas também confirmaram que nunca ninguém avistara o castelo em dias de chuva, segundo uns devido aos terríveis nevoeiros que assolavam a zona, segundo outros devido à magia antiga que habitava o local. Passaram ainda longas horas perdidos no olhar um do outro pois com o passar do tempo já muito mais os unia do que a simples procura do castelo.

A chuva continuava a cair impetuosamente sobre o automóvel azul. Apesar da dificuldade em vislumbrar o caminho ele não conseguia deixar de permitir um ligeiro sorriso iluminar o seu rosto, aquela era a chuva de que ele necessitava. Finalmente!

Encontraram a pequena saída da estrada onde uma placa verde, pouco maior que um comum sinal de trânsito, anunciava finalmente: Castelo do Céu Azul, 500 metros. Com um brilho de esperança infinita nos olhos, sorriram. Ele tomou a mão dela na sua e disse: — Chegámos.

Seguiram pela estrada estreita, entre arbustos densos e flores silvestres. A neblina deu finalmente uma trégua e por entre as nuvens densas avistaram‑no. Um pequeno castelo, cinzento‑escuro, de pedras que já haviam conhecido ao longo dos séculos as agruras do tempo. Heras sobre as muralhas, pequenas ameias e janelas pequenas rasgadas na forma de seteiras insidiosas. Do lado ocidental, altaneiro sobre as muralhas, insinuava‑se o torreão, o local onde toda a verdade os aguardava.

Foi então que aconteceu. O momento que voltou todo o seu Universo ao contrário. Num só instante toda a realidade em que acreditavam se inverteu, foi ao mesmo tempo uma epifania e uma mistificação pois eles não conseguiam acreditar no que os seus olhos lhes mostravam.

O castelo inteiro elevava‑se no ar. Arrastava consigo pedaços de solo, pedras, raízes de árvores. Ergueu‑se lentamente, volátil e silencioso como uma bola de sabão. Ganhou altura, tornou‑se um mero vulto entre a neblina ainda densa, e depois encontrou o seu rumo. Dirigiu‑se para sul, na direcção onde o tinham procurado antes sem sucesso. Nas suas cabeças, uma voz que poderia tanto vir do rádio do carro como das profundezas das suas almas anunciou solenemente:

— Podem visitar o meu castelo nos dias de céu azul, sempre foi assim e sempre será. Hoje chove, ele é apenas meu, terão de encontrar o vosso tesouro noutro local.

Ele baixou o olhar. Tinha‑se sumido qualquer esperança de encontrar esse sentido que procurava para a sua vida. Foi então que sentiu uma mão terna tocar‑lhe a face. Ainda incrédulo, olhou para o lado, para o olhar preocupado da sua companheira de viagem. Viu naquelas orbes castanhas o brilho que pouco a pouco se tornara para ele uma necessidade, e sentiu profundamente o calor terno de uma compreensão infinita. Foi então que compreendeu. No decorrer da sua busca havia já encontrado aquilo que procurava.

Pedro M. Lourenco in "À sombra de uma estrela intermitente"

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