• Pedro M. Lourenço

A floresta de faias


O silêncio adensava-se na atmosfera, cobrindo o mundo como um pano do mais imaculado branco. Era este o silêncio que ele procurava, o silêncio calmo da floresta de faias que o Inverno cobrira de neve. Era ali que encontraria o fio de pensamento, a reflexão que necessitava de trazer à sua vida.

Longe da sua habitual depressão era a uma felicidade recém-encontrada que necessitava de dar rumo. Vagueara perdido por vários dias, abandonado à sua própria euforia. Perdera-se no colorido vitral de emoções que o assaltara. Chegara agora a altura de se reencontrar.

Sob as faias despidas, acompanhado apenas pelo leve sussurro do vento invernal que acariciava com dedos gélidos as frágeis gemas das árvores, sentou-se sobre a neve pronto a passar tanto tempo quanto fosse necessário na procura de um ponto de equilibro naquele deserto branco. Pensou longamente na sua vida, desde a infância à velhice. Perdeu longos momentos a relembrar os muitos dias perdidos, ganhos ao lado de quem sempre fora o centro da sua vida. Afagou docemente as memórias da infância e relembrou, com tremores que poderiam ser de frio, as dores sentidas na adolescência. Reviveu num segundo a vida da juventude, cujas boas e más memórias perduraram demoradamente no fundo da sua mente. Matutou no seu lento maturar, viveu as ideias e ideais que sofregamente apoiou. Relembrou todos os que foram parte da sua vida e carimbou com o olhar interior da mente as doçuras amargas e as amarguras doces. Sentiu-se definhar ao recapitular o lento decair do seu vigor nos últimos anos.

Horas, dias, talvez tenham passado meses. Aquele ente da floresta olhou profundamente o mar branco que o rodeava até achar o seu destino. Encontrara por fim o seu lugar final ali entre flocos de neve e raízes nodosas. Foi lá que se ergueu, abriu os olhos, e estendeu os braços aos céus. Sentiu a energia da terra fluir nas suas veias e artérias, experimentou um forte enrijar dos músculos e a sua pele pareceu ganhar a consistência da cortiça.

Morreu o homem, nasceu a árvore, pois fora nisso que se tornara. Uma nova faia estendia agora os seus ramos aos céus cinzentos do Inverno.

Pedro M. Lourenco in "À sombra de uma estrela intermitente"

#Faia #Floresta #Depressão #Silêncio #Inverno #Metamorfose

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