• Pedro M. Lourenço

A rapariga e o tigre


A chuva não parava de cair há três dias e sob as folhas espessas e viçosas de uma palmeira um tigre espreguiçava-se. Os pingos, grandes como cogumelos, fustigavam incessantemente a árvore num batuque que se prolongava, hora após hora, dia após dia. Por vezes, ajudados pelo vento ligeiro que conseguia atravessar o labirinto vegetal e chegar ao interior da floresta, algumas gotas de chuva atingiam o tigre. Este, incomodado, rapidamente sacudia as gotículas que se formavam sobre a sua pelagem lustrosa e alegre. Como um gatinho doméstico, lambia as zonas molhadas do pelo procurando manter-se tão impermeável quanto lhe era possível na sua situação presente.

Por entre uma pequena vereda da floresta, molhada até aos ossos, encolhida como uma criança no calor dos braços da sua mãe, uma rapariga caminhava apressadamente carregando nos braços um cesto de fruta. Era a fruta que o pai lhe tinha pedido para levar até à aldeia dos tios. Um cesto de fruta em troca dos magníficos bifes de gazela que tinham recebido na semana anterior. Apesar da chuva, apesar dos concelhos da mãe para se manter afastada da floresta naqueles dias de chuva, ela não resistira a meter-se ao caminho para visitar, na aldeia dos tios, o amor da sua vida.

Era nele que ela pensava enquanto sentia o toque frio e copioso de milhares de pingos de chuva a fustigarem a sua pele. A paixão aquecia o seu corpo enregelado. O toque suave da chuva nos seus lábios faziam-na sonhar com os beijos doces daquele que tinha conquistado o seu coração. Era com o calor e a segurança do seu abraço que ela sonhava quando avistou à sua frente o tigre.

Era um animal impressionante. Três metros de comprimento, uma cabeça do tamanho de um tambor, patas imensas e musculadas, dentes grandes como navalhas, e um pelo laranja e negro tão belo como assustador. Ao ver a sua visitante o tigre acabou o seu lento e preguiçoso espreguiçar e olhou fixamente a criatura que se lhe deparava. Ergueu-se lentamente, sem parar de a fitar nem por um segundo. Deu dois passos em frente que o deixaram fora da protecção oferecida pelas folhas da palmeira.

Ela ficou parada a olhar o tigre. Mais do que assustada ela estava maravilhada com tão fenomenal ser. Notou cada pormenor do seu pelo, cada detalhe das orelhas, cada dedo nas patas. Reparou nas pegadas enormes que ele deixava no chão molhado enquanto caminhava e nas translucidas esferas líquidas que a chuva desenhava por entre o laranja e negro do seu dorso. Subitamente compreendeu a sua situação. Ele era o predador e ela era a presa. Ele ia ter uma refeição e ela ia morrer sem nunca voltar a ver o seu amor nem sentir o seu abraço forte.

O tigre caminhou na direcção da sua presa, sempre com o seu olhar fixo nela. Já mais perto, cheirou o ar cuidadosamente e começou a mirar a rapariga de alto abaixo. O possante felino notou a forma como os joelhos dela tremiam, ouviu o silêncio deixado no ar entre eles quando ela parou de respirar ao sentir o pânico subir pelas suas costas com o toque de uma mão gelada.

Ela fechou os olhos e esperou o pior, desejando que tudo acabasse depressa. O tigre, altivo e majestoso, passou por ela e dirigiu-se para a floresta densa à procura de caça. Tinha fome, era verdade, mas um grande predador como ele conseguia obter presas bem melhores que aquela.

Quando finalmente ganhou coragem para abrir os olhos e se apercebeu da ausência do tigre, a rapariga caiu sobre os seus joelhos a soluçar incontidamente. Olhou os céus com um sorriso de agradecimento infinito, levantou-se, e correu para os braços do seu amor.

Pedro M. Lourenço In "À sombra de uma estrela intermitente"

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