• Pedro M. Lourenço

A antecâmara da existência


Uma prisão? O espaço confinado a que estava restringido parecia-lhe ficar menor a cada dia que passava. A sua pequena cela não tinha janelas, apenas a clemência de uma fusca claridade que toldava mais do que revelava os limites da sua existência. Onde estaria ele? Estaria ali há quanto tempo? A verdade é que não tinha qualquer memória clara de outro local ou condição, e a ausência quase total de estímulos sensoriais tornava impossível qualquer tentativa de avaliar a passagem do tempo. Por vezes ouvia. Simplesmente ouvia. Procurava interpretar cautelosamente esses parcos estímulos auditivos, com a curiosidade naïve de quem experimenta experimentar pela primeira vez.

Perdido no doce embalo daquela existência resguardada, passava longas horas, que talvez fossem meros segundos, perdido a filosofar. Seria pois aquilo tudo o que poderia esperar da vida, ou apenas uma curta antecâmara daquilo que estava ainda para vir? Seria aquele local todo o Universo, ou antes uma mera concha fechada que lhe ocultava a imensidão de um espaço exterior ainda insuspeito?

Ultimamente começara a suspeitar que não era a sua prisão que estava a minguar, mas antes o seu corpo que crescia. Notava diferenças nos seus membros, que se tornavam a cada dia não apenas mais longos como também mais fortes. Certo dia, que talvez fosse noite, num momento de verdadeira epifania, compreendeu por fim que a penumbra em que vivia se devia não apenas à falta de luz da sua cela, mas também ao facto de não ter até então compreendido que tinha os olhos cerrados. Foi nesse dia que sentiu finalmente o ensejo de fazer algo para alterar a sua condição. A força em si que crescia, dia após dia, foi a acendalha que nele desencadeou finalmente uma vontade férrea de lutar pela liberdade.

Depois das primeira parcas tentativas de usar os seus membros contra a matriz que o continha, depressa compreendeu que a solução estava na sua cabeça. Algo duro lhe crescia sob os olhos e instintivamente soube que deveria usá-lo como se de um martelo se tratasse. Martelou e martelou a barreira branca até por fim ver o seu esforço recompensado pelo desenhar da primeira rachadura mais luminosa contra o branco fosco que o rodeava. Na alegria daquele momento soltou um breve som da sua garganta. Foi um primeiro som que o surpreendeu tanto quanto aquela extraordinária evidência de que o seu confinamento poderia ter fim.

O trabalho árduo continuou e daquela primeira rachadura nasceram muitas outras, até que, eventualmente, pequenos buracos de luz perfuraram o véu que lhe escondia o resto do mundo. Percebeu que agora poderia usar os membros como alavanca para acelerar o seu labor. Quando a casca por fim cedeu, foi cegado pelo brilho alegre e efusivo da luz do dia que o aguardava lá fora. Quando os seus olhos por fim se ajustaram à radiância termonuclear do Sol, viu desenhado contra o azul glorioso daquele dia de Primavera a expressão doce e terna dos olhos do seu pai que o miravam por detrás de um enorme bico alaranjado.

A pequena ave eclodira por fim, depois de quatro longas semanas de incubação. Deixou para trás as cascas partidas do seu ovo e respirou profundamente o ar fresco da manhã, na certeza de que a sua vida tinha acabado de começar.

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