• Pedro M. Lourenço

Um dia acordei e no céu não havia Sol


Um dia acordei e no céu não havia Sol. Pensei que devia ser noite, uma noite bem cinzenta porque também não havia estrelas nem lua. Olhei o relógio e os ponteiros anunciavam 9:30. Não podia ser, ainda era de noite! No telemóvel, o mesmo veredicto, 9:30. Pensei para comigo que chegara a hora de consultar o oráculo… liguei a televisão.

Antecipando uma má notícia na estranheza da situação, senti a adrenalina fluir nas minhas veias enquanto a respiração acelerava e o coração disparava. Num instante, o som electrónico do acordar do aparelho cedeu o lugar à monotonia da chuva electrostática. Desapontamento.

Vesti-me a correr e corri para as ruas. Uma escuridão asfixiante tomara conta das ruas, como se o dia anterior fosse um sonho há muito esquecido. Folhas outonais cobriam as pedras da calçada, ainda húmidas da chuva que horas antes dera as boas noites à cidade. Comecei a perceber que a escuridão não era total, havia como que uma penumbra, um véu escuro que toldava a coloração natural de tudo o que me rodeava.

Subi a rua, desci a rua, nos passeios nem vivalma. Ao longe nenhum farol tentava penetrar o escuro tom da cidade. Lembrei-me de telefonar a um amigo, só para verificar já sem grande espanto que o telemóvel não tinha rede. Desci a rua a correr enquanto a leve sensação de pânico que crescia no meu peito começava a tomar os contornos de um enorme elefante em fúria. Na minha pressa ansiosa escorreguei no musgo das pedras e caí, num trambolhão digno de umas boas gargalhadas se eu não fosse o único transeunte a passar naquela rua.

Levantei-me ainda atordoado pela queda. Confundido pela escuridão, pensei ver um vulto mover-se na esquina. Levantei-me sacudindo as calças sujas com um gesto que tinha tanto de mecânico como de fútil. Na esquina o mau agoiro adensou-se. Um gato morto. Um gato preto morto. Comecei a achar que tinha ido parar a um filme do Ingmar Bergman. Na verdade, com tanta escuridão, tudo parecia ser matizado nos infinitos tons de cinzento dos filmes a preto e branco. Inconscientemente, imaginei um espectro de capa e capuz preto, que se aproximava de mim com a foice dos condenados em punho.

Olhei em volta. Nada. Lembrei-me que não é a morte que me atemoriza, pelo menos não a minha. Desci as escadas de quatro em quatro só para me encontrar novamente no início da descida. Alto lá! A que tipo de Universo paralelo surreal é que eu tinha vindo parar? De repente tudo fez sentido. Estava a sonhar. A certeza da minha convicção permitiu-me um momento de infinito alívio. Estava a sonhar.

Esforcei-me por acordar. Tentei abrir os olhos mas já estavam abertos, tentei sentir o doce conforto dos cobertores mas só conseguia sentir o frio que me tocava como dedos mórbidos na escuridão. Cada vez mais assustado procurei a salvação no proverbial beliscão. Nada. Não acordei. Aquilo não era um sonho. O pânico esmagou-me como uma imensa onda que rebentava contra uma falésia. Voltei a correr, subi a rua enquanto continha um grito atroz no silêncio da minha garganta.

Lembrei-me da estação de comboios próximo de minha casa. No buliçoso centro dos transportes citadinos a animação era sempre muita, teria de haver alguém por lá. Voltei a descer as escadas, cuidadosamente desta vez. Foi com cuidadosa alegria que verifiquei ser possível desta vez chegar à rua de baixo. Tudo parecia igual ao que ali existira na véspera, apenas mais deserto e penumbroso. Corri para a porta de entrada da estação enquanto reparava que o enorme relógio, que há décadas certificava a pontualidade dos comboios, anunciava as 9:30.

Olhei o meu próprio relógio que continuava a apontar a mesma hora. Os relógios estavam parados. Voltei a minha atenção para o telemóvel e o pequeno símbolo da sociedade moderna insistia na mesma hora, 9:30. Desconcertado, parei um momento para pensar. Como podia isto ser? Os relógios de ponteiros podiam parar mas o relógio do telemóvel é controlado por um chip, pelo deus de silício da nova religião da humanidade. Enquanto tiver electricidade ele irá continuar a contar o tempo, e se o telemóvel estava ligado existia electricidade. Como nota mental pus de parte os cenários trágico-hollywoodescos do pulso electromagnético que segue a explosão da bomba nuclear. Por um momento ínfimo permiti-me um sorriso. Mesmo naquele momento de crise e desespero a minha mente continua afinadamente racional.

Rapidamente caí em mim. O meu raciocínio não me aproximou nem um pouco da solução para o labirinto absurdo a que viera parar. Os relógios tinham parado, mesmo aqueles que nunca param. Avancei os últimos passos até à estação de comboios e, já sem grande surpresa, deparei com os terminais completamente vazios como se nunca ser humano algum os tivesse visitado. Desalentado, desconcertado, perdido numa realidade que não era a minha, sentei-me num banco e olhei o infinito.

Recomecei a minha busca, agora dentro de mim. Pesquisei nas minhas memórias uma explicação para o fenómeno que se me deparava. Quando tudo o resto falhou, cheguei à única explicação que me satisfez. Enlouquecera. Perdera a razão e deixara de ter noção do que me rodeava. Tentei abarcar as desmedidas implicações de tal sina. Procurei um local sólido, naquela areia movediça, onde fixar uma fundação para os meus pensamentos.

Perdido nestes devaneios senti que se passavam horas enquanto me mantinha sentado no banco a olhar para a parede branca. Digo senti pois nada provava que o tempo realmente passava. Nada se movia, nada se passava, não havia um som que enchesse o vazio pressentido pelos meus sentidos. Pensei em dormir. Talvez ao acordar tudo estivesse de volta ao normal. Deitei-me e fechei os olhos mas nunca antes me sentira tão desperto como naquele momento. Enfadado com o fracasso do meu plano levantei-me num salto e recomecei a minha busca.

Parvoíce. Claro que não enlouquecera. Os meus pensamentos pareciam-me tão claros como sempre. Caminhei ao longo de mais uma rua escura, acompanhado apenas pelo som ritmado dos meus passos. Ao fim de alguns metros convenci-me de que estava a ser seguido. O meu perseguidor cuidava os seus passos de forma a soarem exactamente como os meus, aproveitava as sombras para se ocultar. Olhei para trás de repente, na esperança de o surpreender. Resultou. Denunciou-se com um leve movimento atrás de um automóvel que parecia nunca ter conhecido a alegria da mobilidade, um modelo antigo cuja cor, há muito esquecida, dificilmente se distinguia da penumbra que tudo o resto cobria. Espreitei o espaço atrás do carro e o meu perseguidor estava lá. Envolto numa capa andrajosa, cinzento para melhor se confundir com o resto do mundo, um homem idoso devolveu-me o olhar com orbes de um cinzento-esverdeado profundo. “Quem és tu?” Perguntei eu sem saber se queria conhecer a resposta. Olhou para mim como uma tarde de Outono que anuncia a chegada do Inverno. “Sou só mais um.” Respondeu ele. “Só mais um que foi esquecido pelo tempo, abandonado aqui como um órfão da luz e da vida.”

Sem compreender as suas palavras voltei a perguntar. “Quem és?” Em vez de responder, olhou para mim com ar de espanto tombando a cabeça alguns graus para a esquerda. De repente começou a rir, primeiro com suavidade, pausadamente, depois cada vez mais ruidosamente, gargalhada após gargalhada num som que me fez lembrar uma avalanche numa imensa montanha de seixos rolados em que primeiro caí um, depois dois, quatro, cem, mil, até toda a montanha tombar no chão com um estrondo ensurdecedor. Riu durante vários minutos até se calar de súbito, como se uma mão invisível lhe tivesse tapado a boca. Depois começou a chorar. Lágrimas correram em catadupa pelas suas faces. Gota após gota elas percorreram o terreno sulcado pelas rugas, memórias fugidias de uma vida já esquecida. Chorou até as poças esverdeadas das suas íris parecerem o leito seco de um ribeiro que depois de um longo Verão enxuto espera avidamente as primeiras águas do Outono.

Sem saber o que dizer, sem saber o que fazer, olhei para ele e esperei. “Diz-me quem és?” Voltei a perguntar. “Quem és e porque choras?” Já cansado de chorar, com o peito arquejante à procura de novo fôlego, olhou para mim como quem olha para um buraco sem fundo. Olhou para mim e disse simplesmente. “Eu sou quem tu és, eu sou tu e tu és eu, apenas o tempo se entrepôs entre nós.” No pesadelo senti-me desfalecer, como se os meus membros se tivessem reduzido a uma papa amorfa. Senti-me rodeado por rolos de algodão cinzento. Caí para trás, sem esperança de encontrar apoio no chão duro da rua, e foi então que percebi. Aquela era a memória da vida que não tinha vivido.

Finalmente acordei, tudo não passara de um pesadelo. Abri os olhos com algum esforço, olhei a janela e vi o Sol a brilhar lá fora. Fora tudo um sonho. Com o calor inebriante do astro rei na face, fechei os olhos e pensei. Fora tudo um sonho. Voltei a abrir os olhos, enchi os pulmões de ar e pensei. Cabia-me a mim encher as memórias de uma vida por viver. Levantei-me então e comecei a sonhar.

Pedro M. Lourenço in "À sombra de uma estrela intermitente"

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