• Pedro M. Lourenço

Universo entre dois espelhos


Atrás dos seus pares, apressada como sempre, corria uma formiga no seu carreiro. A urgência parecia o único propósito da sua vida tal era a ansiedade doentia com que percorria o seu caminho sobre as suas seis incansáveis patas articuladas. Um toque leve num grão de areia para saborear melhor um aroma, um olhar pouco intencional para as antenas trémulas de uma formiga que voltava já carregada de comida, longe de serem distracções, eram acções essenciais para melhor compreender a tarefa que se lhe avizinhava.

O pequeno insecto corria o seu caminho em direcção ao alvo de tanta excitação. Ali, no meio de uma ínfima clareira naquela imensa floresta que era o relvado, jazia morto um ratinho, um pequeno mamífero de pelo cinzento-claro que encontrara a morte sobre os passos também apressados de uma enorme bota enlameada. Tratara-se de uma bota do encarregado da quinta, que pisara acidentalmente o pequeno mamífero ao percorrer apressadamente a curta distância entre os estábulos e a casa depois de ter ouvido um grito na inconfundível voz da senhora da casa.

Ao entrar na casa, esquecendo-se até de limpar os pés no tapete tal era a sua apreensão com o que motivara o grito da senhora, olhou distraidamente o céu notando, sem embora as registar na sua memória, as luzes de um avião que sobrevoava a quinta. Nesse avião a hospedeira de bordo acabava de servir o café ao Dr. Antunes, médico abastado da província que se preparava para passar umas férias descansadas com a família nas distantes Ilhas Salomão, um paraíso pouco conhecido do Pacífico Sul. Ao seu lado a sua esposa olhava fixamente a janela, pensando suspirantemente nos beijos apaixonados que o seu amante lhe dispensara na véspera, quando se despediram antes da sua viagem com o marido. Apesar de esta abstracção afastar a sua mente da realidade presente, via também as luzes de uma grande cidade de que o avião se aproximava, um imenso ninho pós-industrial onde a espécie humana se aglomerava num imenso favo de metal, betão e luz que era já visível do espaço.

Sobre a cidade, sobre o avião, sobre as nuvens e sobre a atmosfera, um astronauta francês olhava pela escotilha da estação espacial, notando o padrão radial com que as luzes da grande cidade se espalhavam, como raízes, espalhando-se em ramificações cada vez mais delicadas sobre a vasta planície escura e aparentemente virgem. Ao seu lado, a sua colega russa atarefava-se com uma experiência científica que pretendia testar os efeitos das radiações cósmicas em células bacterianas. Pousada sobre o armário, fixa por uma pequena superfície de velcro que evitava que os efeitos da ausência de gravidade a levassem a flutuar pela cabine da nave, uma luva cinzenta escondia um pequeno passageiro clandestino que de alguma forma encontrara o caminho até ao espaço.

Dentro da luva, entre duas pregas de tecido, uma pequena formiga tentava sobreviver aquela situação estranhíssima, longe de todos os seus pares, vagueando pelo ar limitado do interior da luva incapaz de controlar os seus movimentos devido à ausência de força gravítica. Olhou para o seu céu limitado, o véu cinzento da luva da astronauta, provou o ar com as antenas incapaz de detectar a assinatura de qualquer outro dos seus patrícios. Terá talvez sonhado com os seus irmãos que, lá em baixo, na longínqua superfície do planeta, procuravam recolher no cadáver do ratinho o alimento necessário para a continuidade do seu formigueiro. Ou talvez não. No fundo, para quê procurar um sentido neste Universo de coincidências?

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