• Pedro M. Lourenço

O chapim herói


O João e os outros meninos gostavam muito de brincar no parque de diversões junto ao pinhal. A brincadeira favorita do João era descer o grande escorrega amarelo que ficava debaixo de um velho pinheiro-bravo. Mesmo nos dias de maior calor o escorrega estava sempre fresco graças à sombra da grande árvore e o João podia passar a tarde toda a brincar sem que a sua mãe tivesse medo que ele apanhasse demasiado sol.

Um dia, enquanto brincava junto ao pinheiro, o João começou a sentir picadas nos olhos e na boca. Quando esfregou os olhos ficou ainda pior e começou a chorar cheio de dores. Preocupada, a mãe correu para junto dele, mas, mesmo quando tentou limpar a cara do João com um pano húmido, as dores não passaram. Como o João estava mesmo aflito a mãe decidiu leva-lo logo para o hospital.

No hospital o doutor tratou o João e conseguiu tirar-lhe as dores, mas avisou que a irritação nos olhos ia demorar uns dias a passar. O doutor explicou então à mãe do João o que se tinha passado: “O seu filho tem pelos de processionária na cara”. “O quê? Processionária? O que é isso?” – Perguntou a mãe. “Trata-se de uma lagarta que vive nos pinheiros e liberta uns pelos muito irritantes para se proteger dos animais que a ameaçam.” – Explicou o doutor.

Na semana seguinte, já recuperado da irritação na face, o João voltou ao parque de diversões juntamente com o seu pai. Quando chegaram viram várias pessoas com coletes amarelos em redor do grande pinheiro. O pai decidiu ir falar com eles: “Boa tarde! O que é que se passa aqui?”. “Boa tarde. Esta árvore tem processionárias que são muito perigosas para as crianças. Vamos ter de a cortar”. – Respondeu um senhor de capacete branco. “Nãoooooo. Não podem cortar a minha árvore favorita.” – Começou o João a chorar.

“Calma João. Deixa-me conversar com estes senhores” – disse o pai. Então o pai do João explicou aos senhores que era biólogo e que sabia algumas coisas sobre as processionárias. Propôs-lhes uma solução bem melhor do que cortar a árvore: “Em vez de cortarem esta árvore tão antiga, podemos pedir ajuda a um super-herói que nos vai salvar das lagartas”.

“Um super-herói? Que parvoíce vem a ser essa?” – Perguntou o senhor de capacete branco. Mas o pai do João logo explicou: “Muito simples. Deixem-me pôr algumas caixas-ninho na árvore. Elas vão atrair para aqui algumas aves, como os chapins, que adoram comer processionárias. Eles vão resolver o nosso problema mais depressa do que qualquer super-herói das histórias aos quadradinhos”.

Nessa tarde, o João ajudou o pai a construir cinco caixas-ninho de madeira, que foram depois pendurar no velho pinheiro. Ainda nem tinham saído do parque e já o chapim Serafim estava a inspecionar uma das caixas-ninho. O Serafim, um magnífico chapim-real de plumagem amarela, preta e esverdeada, pensou para consigo: “Que belo sítio para fazer o meu ninho!” Como ele era um chapim decidido nem pensou duas vezes, foi chamar a sua companheira Maria e logo ocuparam a sua nova casa.

No dia seguinte, logo de manhã bem cedo, o João e o pai foram ao parque munidos de dois pares de binóculos. Sentaram-se num banco a alguma distância do grande pinheiro e ficaram à espera. Foi o João o primeiro a vê-los! “Ali pai, no ramo grande do lado direito. Dois chapins” O pai apontou os seus binóculos para o local indicado pelo filho e logo os avistou. “Sim senhor João. São dois chapins-reais, um macho e uma fêmea”. Eram o Serafim e a Maria. Depressa viram também o que eles tinham no bico: cada um comia uma processionária para pequeno-almoço.

Ao longo das semanas seguintes o Serafim e a Maria incubaram os ovos que a Maria pôs no ninho. E quando não estavam a chocar os ovos, estavam cá fora a comer lagartas. E quando os seus bebés nasceram era ver o Serafim e a Maria incansáveis a levar lagartas para eles comerem. E não eram só eles. Nas outras caixas-ninho instalaram-se mais três casais de chapins-reais e um casal de chapins-azuis, todos eles fãs de processionária ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar.

Quando os chapins bebés ficaram grandes e saíram dos seus ninhos, já não sobrava nem uma processionária no velho pinheiro. Voltara a ser seguro brincar no escorrega amarelo à sombra da árvore. As cinco famílias de chapins mudaram-se para o pinhal próximo e continuaram aí a sua tarefa de limpeza da praga de processionárias. O dia todo era vê-los a voar para aqui e para ali, a cantarem à maneira dos chapins: “cha-cha-pim, cha-cha-pim”. Na verdade estavam a dizer uns aos outros: “Já comi mais uma, já comi mais uma!”

Um dia, quando o verão começava já a dar lugar aos dias mais frescos do outono e no chão do parque já se viam as primeiras folhas douradas, o João escorregava no seu escorrega favorito juntamente com o seu amigo Tomás. Entre uma descida e uma subida, o João tocou no ombro do amigo e apontou para um ramo do pinheiro. “Tomás, vês aquele passarinho ali naquele ramo?”. “Sim, é amarelinho.” - Respondeu o Tomás. “Aquele é o chapim que comeu as lagartas. Graças a ele já podemos brincar aqui em segurança. Ele é o nosso herói!” Pousado no ramo a mordiscar uma aranha, o Serafim levantou o bico e encheu o peito para cantar o seu orgulho: “cha-cha-pim-cha-pim-cha-pim!

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