• Pedro M. Lourenço

Epílogo a uma vida


Pulei sobre a última rocha, um enorme calhau ali largado por forças incompreensivelmente superiores à vontade humana. Cheguei assim ao final da minha longa escalada, extenuado, liberto de todas as forças que se haviam acumulado nos meus músculos pouco habituados a tais esforços. Cansado mas determinado olhei em frente e vi-o, azul, imenso, eterno e em imutável mudança. O oceano devolveu-me o olhar, espelhado em cada uma das infinitas faces que compunham as suas ondas, graciosas filhas do vento. O Sol esbatido de mais um final de tarde envolto em nuvens reflectia-se em cada um dos olhos do mar, transpondo para este todo o seu brilho vital; e ao longe, muito para lá dos domínios dos homens, uma vela branca, altiva, erguia-se sobre um horizonte cinzento-escuro, no pequeno interstício entre o azul melancólico do mar invernal e a cor plúmbea e ameaçadora das nuvens de mais uma tempestade que se avizinhava. Sozinha, a vela parecia flutuar sobre o mar, lembrando a todos que o planeta é redondo, qual pérola azul vagueando livremente pelos mares de escuridão do Universo.

Sentei-me sobre a extremidade da falésia, sobre um pequeno tufo de plantas que persistentemente cresciam sobre a rocha nua incólumes perante o infindável martírio dos ventos salgados do mar. Cem metros abaixo dos meus pés as ondas quebravam-se violentamente contra os enormes rochedos, ao longe meros seixos de praia, elevando grandes quantidades de espuma branca que era rapidamente dispersa pelo vento sob a forma de um pequeno chuvisco insistente que a tudo cobria de um agradável aroma a maresia. Sobre as ondas, elevando-se sem dificuldades acima do rebuliço da rebentação, um grupo de gaivotas esvoaçava placidamente usufruindo de forma perfeita do vento forte que se fazia sentir. Hoje voam para sul, assim como poderiam ter rumado para norte, leste ou oeste, na sua busca incansável por alimento, peixe ou lixo, frutos do mar ou frutos de uma sociedade irresponsável. Para elas era indiferente e por isso continuavam sempre a voar, o destino incerto, o seu objectivo bem definido.

Absorto nestes pensamentos, enquanto contemplava a vastidão azul que se preparava para me receber de braços bem abertos, lembrei-me por fim do meu próprio objectivo, da razão pela qual havia feito aquela caminhada difícil sobre rochas e sobre cardos. Por fim a realidade caiu sobre mim com o peso de cinco mil rochedos. Eu subira aquela falésia guiado apenas por uma vontade cega, momentaneamente esquecida perante a beleza do cenário que se me deparara. Eu subira aquela falésia para escrever, com o meu próprio sangue vermelho e quente, o derradeiro capítulo da minha curta e dolorosa vida. Sem outro rumo que não esse, eu decidira por cobro à minha existência patética, lançar-me no vazio e mergulhar, qual meteorito vagueante proveniente das profundezas do éter, no oceano frio e imparcial. Deixava assim ao critério dele, pai de todas as criaturas que caminham hoje sobre a face da Terra, a decisão sobre o meu destino, que seria a partir de hoje vazio. Vazio de vida, vazio de dor.

Porém, olhando de frente o fim para que todos os inícios se dirigem, tive um momento de procrastinação. Se a vida sempre parecera correr à minha frente, numa fuga desenfreada que me levara a uma vida de eterna insatisfação, numa perseguição sem fim que lentamente me drenara, parecia-me que a morte poderia esperar mais um pouco. No fundo era aquilo que ela sempre fizera, escondida nas sombras como um silencioso predador, emboscado no negrume à espera de uma presa incauta. Foi assim que decidi deixar, para todos os que estejam interessados, este pequeno epílogo da minha vida curta, estéril e desperdiçada. Espero que agora, que o meu corpo foi devolvido à cadeia alimentar que o criou, reutilizado e recriado sob mil e uma formas diferentes, e que a minha alma, que alguns creem eterna, regressou ao nada de onde proveio; espero que o relato desta minha breve aventura, fugaz passagem pelo doce desengano que é a vida, possa servir para ensinar algo, partilhar com alguém o pouco conhecimento que consegui reter e que agora lanço aos ventos, para ser espalhado pelos sete mares... livre... liberto... eterno.

Pedro M. Lourenço in "À sombra de uma estrela intermitente"

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