• Pedro M. Lourenço

Hoje apeteceu-me voar


Nunca me tinha acontecido, mas hoje apeteceu-me voar. Ia eu no autocarro aos trambolhões, por entre os sobe-e-desces das sete colinas de Lisboa, quando avistei um pequeno pardal, altivo no seu perfeito domínio dos céus. A pequena ave parecia flutuar, pairar sobre o solo como se o seu corpo desconhece o significado do seu peso. Quando avançava, esvoaçante, dobrava curvas, subia, descia, fazia pouco da lei da gravidade enquanto massajava o ar com a ponta de cada uma das suas pequenas penas. Como era possível não invejar um ser assim?

Senti inveja, uma inveja intensa, quase infinita. Farto de ressaltos e desconfortos, quis logo ali sair do autocarro. Quis que me nascessem asas nos braços, que o meu corpo se revestisse também de penas suaves e quentes. Quis fazer do ar o meu palco e nele desenhar as mais belas acrobacias. Quis voar, esvoaçar, planar, dançar no ar sobre as árvores e sobre os prédios. Quis voar alto sobre campos e rios, sobre montes e vales. Quis ver do ar o mundo com os olhos da águia ou do pardal. Ver pequeno tudo aquilo que nos parece grande, as terras desenhando uma infinita manta de retalhos, os mares feitos tapete azul-prateado sem fim. Ver as cidades desenhadas numa pintura abstracta de ruas negras e telhados cor de tijolo, pintalgada aqui e ali com o verde dos jardins e das alamedas. Ver lá em baixo os carros movendo-se com a lentidão e o tamanho de carrinhos de linhas e, despudoradamente, fazer do desespero que aquele trânsito infernal a tantos traz mais um motivo para regozijar da minha nova liberdade.

Quis subir mais alto ainda e avistar em meu redor as nuvens do céu. Imiscuir-me entre elas e sentir o seu toque molhado e frio na minha pele emplumada. Quis sentir o frio gélido da altitude no conforto quente de um corpo minuciosamente revestido de penas capazes de rechaçar as mais negativas temperaturas. Quis chegar àquela terra de ninguém só conhecida das aves e dos aviões, de onde a visão esbate a pegada do homem sobre a terra a meras linhas demasiado rectas para terem por trás a mão criativa e risonha da natureza.

Quis depois descer. Quis descer com o voo picado dos falcões. Mergulhar na atmosfera a velocidades prodigiosas com o vento a rugir em meu redor. Sentir nas minhas asas a capacidade de controlar o movimento de forma a evitar no último instante o embate letal contra o solo. Quis depois dançar. Dançar sem contacto com o solo, com a leveza e graciosidade que só as aves conhecem. Quis que toda a minha vida fosse uma celebração da infinita liberdade de não estar preso ao solo nem ao insustentável peso do meu corpo.

Enfim, hoje apeteceu-me voar mas tive de me contentar com o que tenho. Escapei-me do autocarro numa breve pausa entre mais alguns trambolhões e continuei o meu percurso a caminhar.

#Pardal #Voar #Inveja #Liberdade #Lisboa

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