• Pedro M. Lourenço

O inventor de histórias


O Francisco era um menino que tinha um grande problema. Vivia um monstro no seu quarto! Muitas vezes o Francisco acordava durante a noite e lá estava o monstro envolto na penumbra do quarto escuro. O Francisco começava a gritar, em pânico, mas quando os pais vinham a correr ajuda-lo, acendiam a luz e o monstro desaparecia.

Os pais dele já estavam muito cansados por acordarem quase todas as noites com os gritos do filho. Por vezes ralhavam com ele quando o Francisco dizia que via um monstro. Pois o Francisco não via que não havia ali monstro nenhum quando eles lhe mostravam todos os recantos do quarto com a luz acesa? Mas na noite seguinte, se o Francisco acordava, lá estava o monstro no cantinho do quarto escuro.

Os pais acabaram por levar o Francisco a médicos que também não acreditavam em monstros. Receitaram-lhe remédios que o faziam dormir um sono sem sonhos que o deixava mais cansado do que se não tivesse dormido. Mesmo assim, o Francisco continua a acordar aos gritos, o que deixava os seus pais cada vez mais zangados e o Francisco cada vez mais triste.

Uma noite, enquanto esperava pelo sono, o Francisco pôs-se a pensar. Os seus pais, os médicos e todas as outras pessoas crescidas diziam-lhe que não existiam monstros, mas ele via o monstro ali no quarto por isso ele tinha de ser verdadeiro. Por outro lado, ele já tinha visto aquele monstro tantas e tantas vezes, se o monstro nunca lhe fizera mal então talvez isso significasse que aquele era um monstro bom.

O Francisco tomou então uma decisão. Da próxima vez que visse o monstro não ia gritar. Nessa noite, ele acordou e lá estava o monstro no canto do quarto. Enchendo-se de coragem, o Francisco deixou-se ficar calado a observar o monstro. Notou que o monstro estava a tremer. Após alguns momentos, o monstro parou de tremer e começou a avançar muito lentamente na direcção do Francisco que, apesar de estar cheio de medo, não gritou.

Então o Francisco respirou fundo e perguntou: “Quem és tu?” O monstro parou de avançar, surpreendido, e depois fez também ele uma pergunta: “Hoje não vais gritar? Por favor não chames o monstro que acende a luz.” “Mas” – respondeu o Francisco – “não é um monstro, é o meu pai.” Mas o monstro não estava interessado nisso, apenas disse: “Quem quer que seja, por favor não o chames nem acendas a luz.”

“Mas quem és tu?” – Insistiu o Francisco. O monstro aproximou-se mais um pouco e agora ele já o conseguia ver um pouco melhor. O monstro era peludo, quase como um enorme peluche, e tinha uma forma que fazia lembrar um coração, com dois altos sobre a sua cabeça larga e um corpo afunilado que terminava num único pé enorme. No escuro era difícil perceber a sua cor, mas talvez fosse roxo.

Quando chegou junto da cama, o monstro respondeu finalmente: “Eu sou um inventor de histórias.” “Um inventor de histórias?” – Estranhou o Francisco. – “E que fazes tu no meu quarto?” A resposta do inventor de histórias deixou o Francisco ainda mais surpreendido: “Onde querias que estivesse? Todos os inventores de histórias vivem nos quartos das pessoas.”

Curioso, Francisco continuou a questionar o inventor de histórias: “Mas por que razão só apareces durante a noite? E todos os quartos têm um inventor de histórias? Porque é que eu nunca tinha ouvido falar de vocês?” O inventor de histórias esboçou um sorriso e replicou pensativo: “Estou a ver que escolhi bem este quarto. A curiosidade e a imaginação costumam andar de mãos dadas.”

Antes que Francisco continuasse a bombardeá-lo com perguntas, o inventor de histórias começou finalmente a explicar tudo: “Na verdade, não existem muitos inventores de histórias. Os poucos que existem escolhem o quarto de uma pessoa promissora e ali vivem a inventar histórias. Nós alimentamo-nos dos sonhos da pessoa e passamos a noite a inventar histórias que depois lhe contamos ao ouvido enquanto dorme.”

“Mas só existimos de noite” – continuou ele – “a luz faz-nos desaparecer. Aliás, é esse o meu problema. Sempre que tu gritas o teu pai vem a correr e acende a luz fazendo-me desaparecer. Com tantas interrupções não consigo trabalhar e, em boa verdade, já lá vão muitos meses desde que inventei alguma história.”

“Desculpa, é que tu metias-te medo.” – Explicou o Francisco. “Mas de hoje em diante prometo que nunca mais vou ter medo de ti, nem gritar durante a noite.” A boca do contador de histórias rasgou-se num enorme sorriso: “A sério? Isso vai fazer-me muito feliz. Eu não queria assustar-te, na verdade a maioria das pessoas nem são capazes de me ver. Só pessoas muito especiais, como tu, conseguem ver os inventores de histórias.”

“Eu sou especial?” – Espantou-se o Francisco. O inventor de histórias logo explicou: “Todas as pessoas são especiais por algum motivo. No teu caso, és especial por seres muito sensível e criativo. Penso que um dia irás ser escritor. Foi essa a razão que me levou a escolher viver no teu quarto.

Desse dia em diante o Francisco nunca mais voltou a ter medo durante a noite. Na verdade, voltou a sonhar a noite inteira e o inventor de histórias, bem alimentado e com tempo para trabalhar, inventou um sem fim de histórias maravilhosas que depois contava ao ouvido do Francisco enquanto este dormia. Quando cresceu, o Francisco tornou-se escritor e escreveu muitos livros com as histórias que ouvia enquanto dormia. Já o inventor de histórias não podia ser mais feliz pois tinha encontrado aquilo que todos os inventores de histórias desejam: uma pessoa capaz de contar às outras as histórias que ele passava as noites a inventar.

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