• Pedro M. Lourenço

A face


A noite caiu rapidamente. Naquela esplanada à beira-mar, onde tantas vezes haviam visto juntos o pôr-do-sol, junto daquela praia onde tinham passado tantos dos melhores momentos das suas vidas, ele olhou o púrpura do céu quase nocturno e sentiu-o. Sentiu-o como uma facada, como se subitamente lhe tivessem arrancado o coração do peito. Já não se lembrava da face dela.

A certeza veio súbita mas brutal. Por mais que se esforçasse, a memória daquela face que lhe oferecera os melhores anos da sua vida já não fazia parte das suas recordações. Muitos anos haviam passado, mas ainda se lembrava carinhosamente do sabor dos seus beijos, do toque suave da sua pele, dos gemidos reconfortantes que fazia enquanto dormia, do cheiro inebriante dos seus cabelos, da curva deliciosa dos seus seios. Lembrava-se de cada passeio que tinham dado juntos, de cada local que tinham descoberto em conjunto, de cada momento em que sentira o seu amor por ela quase vibrar à flor da pele, de cada noite que passaram juntos, de cada lágrima que lhe havia secado no rosto. Lembrava-se de tudo, mas não se lembrava da sua face.

Fora por essa face que primeiro se tinha apaixonado, quando a vira um dia naquela praia na companhia de alguns amigos comuns. Fora essa face que fixara longamente no dia em que, naquela mesma praia, num final de dia tão parecido com o de hoje, lhe confessara o seu amor. Fora essa a face com que sonhara durante todos os anos em que estiveram juntos. A companheira que lhe preenchera os sonhos e nunca mais o deixara sentir-se só. Fora essa a face que fora obrigado a reconhecer na morgue, naquele dia pior que todos os outros, depois do acidente que fizera terminar abruptamente a sua vida, ou pelo menos tudo aquilo pelo que sentia vontade de viver. Lembrara agora cada uma dos milhares de lágrimas que lhe haviam rolado sobre as faces nas semanas que se seguiram. Cada grito de dor que lançara contra as paredes vazias do seu quarto, cada esgar de agonia em que se havia contorcido enquanto jazia naquela cama agora grande demais para quem tinha de dormir sozinho.

Bebeu mais um Martini. Nos últimos tempos tinha começado a beber cada vez mais. Nos primeiros tempos, depois do acidente, limitara-se a sobreviver. Obrigava-se a comer a comida que deixara de ter sabor. Tomava banho mais para lavar as mágoas do que para lavar o corpo. Tentava trabalhar apenas para esquecer o vazio mortificante que o preenchia. Nas semanas passaram meses, nos meses passaram anos, mas a dor nunca o deixou. O mesmo vazio que inicialmente o atormentara tornou-se eventualmente o seu único suporte. Agarrava-se àquela dor como a uma bóia salva-vidas pois sentia no seu âmago que era a única coisa que lhe restava. De noite pedia à morte que o levasse, de dia pedia à noite que chegasse depressa. Começou a passar cada vez mais tempo naquela esplanada à beira-mar, a dedicar cada vez mais tempo aos longos passeios que dava naquela praia ao longo da alameda das suas memórias mais felizes. Sabia que um dia beberia um Martini demasiado, ou esqueceria o instinto que o impedia de conduzir depois de sair da esplanada a cambalear.

Olhou o mar mais uma vez e tentou de novo relembrar a face dela. Não conseguiu. Foi então que nasceu a lua, levantando-se lentamente cheia sobre o mar como uma cara sorridente. E então algo extraordinário aconteceu. Na face da lua estava a face dela, estivera sempre ali, quase ao seu alcance. Viu em cada cratera cada feição, lembrou-se de cada pormenor, de cada pequena ruga, de cada detalhe dos olhos, de cada curva dos lábios, de cada jeito das bochechas, de cada brilho do sorriso. A memória sempre estivera ali, consigo. Abandonou o Martini e foi para casa, para o seu quarto demasiado vazio e para a sua cama demasiado fria. Pela primeira vez em muitos anos dormiu a noite toda e acordou com um sorriso nos lábios.

Pedro M. Lourenço in "À sombra de uma estrela intermitente"

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