• Pedro M. Lourenço

O muro


No seu passo lento e pesado a tartaruga seguia o seu caminho. Percorria a rota palmilhada por incontáveis gerações da sua espécie. Caminhava os solos duros do deserto até ao fundo seco do lago onde estivaria protegida da inclemência dos elementos até ao regresso das chuvas. Caminhava lentamente, com o passo certo de quem sabe exactamente para onde vai e tem tempo suficiente para ir parando aqui e ali para mordiscar os cactos e arbustos ressequidos que lhe apareciam pela frente.

Ao amanhecer, quando o Sol começou a trazer do leste as primeiras ameaças do abrasador inferno que pintaria mais um dia de verão, deparou-se com o obstáculo. Um muro. Um imenso muro de betão armado erguia-se do solo no meio do deserto e parecia estender-se infinitamente até desaparecer no horizonte onde o olhar o perdia de vista quer a leste quer a oeste. A tartaruga fez aquilo que qualquer um faria no seu lugar. Começou a procurar alguma abertura, alguma brecha no muro, alguma esperança de passagem para o outro lado. Tentou caminhar ao longo do muro, primeiro em direcção ao sol nascente, depois com o sol pelas costas. Tentou até escavar por baixo, mas sem sucesso, o betão prolongava-se profundamente sob o solo. Aquela era uma barreira verdadeiramente intransponível. Desiludida, a tartaruga decidiu regressar para as terras ainda mais secas e áridas onde passara o inverno e primavera a comer a sua planta favorita. Precisava de encontrar com urgência um local seguro onde dormir o seu longo sono estival, de outra forma a sua vida estaria em risco.

No dia seguinte, enquanto caminhava de volta ao sul de onde proviera, a tartaruga cruzou-se com outros caminhantes que palmilhavam os mesmos caminhos do deserto. Uma mulher jovem caminhava com uma criança ao colo e uma enorme mochila às costas. Alguns passos atrás, no seu passo lento e pesado, seguia uma idosa com o olhar perdido nas memórias. A paisagem imponente mas monótona do deserto é favorável à meditação. A idosa via diante do seu olhar não o desfilar aborrecido de cactos e pedras, mas as recordações de mais de sete décadas arduamente vividas. Pensava no seu irmão, que pulara a fronteira há mais de cinquenta anos, e no seu filho mais velho que lhe seguira os passos há menos de cinco. Chegara agora a sua vez de tentar a sorte do outro lado dessa linha que ali separava a riqueza da miséria, a fome da abundância. Demasiado velha para subsistir sozinha e demasiado orgulhosa para aceitar que a sua filha e a sua neta fossem obrigadas a viver na miséria por sua causa, aceitara por fim o destino que procurara evitar ao longo de todos os seus longos anos.

Ela já tinha ouvido falar do muro que os homens ricos do norte tinham construído para barrar o caminho aos milhares de migrantes que, como elas, percorriam aquele caminho em busca de uma vida melhor. Tinha ouvido todas as desculpas e argumentos em prol do muro, assistido incrédula à forma abjecta como tinham insultado os seus conterrâneos, reduzidos a uma cáfila de violadores, traficantes e terroristas. Mas nada disso a tinha preparado para a absurda imensidão do muro. Até perder de vista, era um imenso risco cinzento que rasgava a paisagem do deserto naquele local sem nome onde os homens tinham decidido arbitrariamente desenhar uma fronteira num mapa. Betão armado, arame farpado, a altura e espessura de uma muralha medieval. Era pois a isto que a humanidade estava reduzida, a uma cruzada insana para encontrar formas de resguardar a sua riqueza de quem dela pedia apenas as mais insignificantes migalhas para sobreviver.

Mãe e filha choraram ao perceber finalmente a inutilidade do seu esforço. Choraram ainda mais ao compreenderem o bem que se poderia ter feito por tanta gente necessitada com uma mera fracção do absurdo investimento aplicado naquele muro. Do lado sul, os pobres procuravam trabalho para sustentar as suas famílias necessitadas, do lado norte os ricos necessitavam da mão-de-obra jovem que a sua população envelhecida já não conseguia produzir. No meio residia apenas o ódio, apenas a ignorância, apenas a xenofobia.

Enquanto caminhavam de volta ao sul, de regresso à sua pobre habitação na mais insignificante das aldeias, a idosa avistou, com os olhos ainda lavados em lágrimas, a velha tartaruga que percorria fastidiosamente o seu caminho no seu passo lento e pesado. Uma pequena ponte de madeira, mil vezes ressequida pelo ar quente do deserto, permitia atravessar em segurança uma estrada de asfalto escaldante que via passarem, um a seguir ao outro, os enormes camiões que transportavam as mercadorias que eram trocadas entre o norte e o sul. Mulheres, criança e tartaruga, todas atravessaram aquela ponte que parecia mais velha do que tempo, para seguirem o seu trilho rumo ao destino incerto que as aguardava mais a sul. Enquanto descansava, à sombra de um grande cacto, a idosa olhou de longe a estafada ponte de madeira e permitiu-se um momento de reflexão para com os seus botões: “Para quê construir muros neste mundo tão desesperadamente necessitado de pontes?”

#Muro #Deserto #Tartaruga #Mulher #Injustiça #Pobreza

9 views0 comments

Recent Posts

See All