• Pedro M. Lourenço

O concerto


Os violinos sulcavam o éter com as suas lamentações. Dos violoncelos brotava um choro de notas e acordes solenemente inspirados. Plácido, mas inquietante, o piano pingava aguçados sons sentidamente soletrados por dedos sábios que manuseavam as teclas brancas e pretas.

Sentado no seu carro, com o rádio a transmitir um concerto de música clássica, ele tentava organizar as suas ideias. Tentava lançar os consideráveis recursos da sua mente na busca da resposta para a sua única pergunta. Porque se tinha tornado a sua vida num doloroso espinheiro que o envolvia, dilacerando a sua carne a cada movimento?

Sentiu o calor do Sol na sua pele, o toque suave de milhões e milhões de fotões que haviam atravessado as vastidões gélidas do espaço desde a estrela vizinha até à sua pele. Devolveu a sua atenção à música. Trompas e trompetes irrompiam agora num crescendo, disputando uma acesa luta pela primazia musical com as lamúrias dos violinos agora tornadas gritos viscerais lançados aos ventos.

Um momento de silêncio, a marca subtil do génio musical. Um prenúncio de morte? Um momento de descanso antes do clímax? Ou um mero devaneio artístico de uma mente invulgar? Olhando ao longe o horizonte revolto pelas ondas do mar pensou nas histórias trágicas dos seus amores, nos projectos inacabados e nos sonhos há muito abandonados. Pesou os prós e contras. Tentou lembrar-se de um motivo para não fazer aquilo que planeara. Não encontrou nenhum.

Depois do silêncio, tambores e adufes rufaram a expectativa de um crescendo. Sozinho, como um pingo de azeite num mar de águas transparentes, um violoncelo lançou um apelo, prontamente respondido pelos violinos e pelas trompas. O piano, taciturno, regulou os excessos dos outros instrumentos, enquanto um coro de flautas lançava uma nota de alegria a tão solene composição. Os tambores vibravam, as cordas gritavam, os trompetes anunciavam, as flautas e o piano riam com ruidosas gargalhadas. O ar enchia-se de um clima de atribulada antecipação, como se se adensassem nuvens negras na senda de uma violenta trovoada.

Ele saiu do carro deixando o rádio ligado. A decisão estava tomada. Abandonar a sua vida falhada e começar de novo. Um novo início, espaço para novos sonhos e novas realidades. Abandonou o automóvel, símbolo de fracassos passados, colocou a tiracolo a mochila onde colocara todos os pertences de que necessitaria, e entrou no barco. Decidira começar uma vida nova, dedicar os anos que lhe sobravam à milenar arte da compreensão dos ventos e à especial satisfação da pesca no mar. Teria como companhia o oceano. Como destino o horizonte azul. Fez-se ao mar sem qualquer intenção de alguma vez regressar a terra. Não olhou para trás uma única vez.

No automóvel, o rádio ligado estremecia com o turbilhão musical do final do concerto. Uma tempestade de notas, de sons, de sentimentos e emoções explodia num clímax final. Silêncio outra vez. Ouviu-se por fim uma sonora salva de palmas.

Pedro M. Lourenço in "À sombra de uma estrela intermitente"

#Música #Mar #Concerto #Despedida #Rádio

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