• Pedro M. Lourenço

Desespero


Peso. Dor. Dói-me a alma, chora-me o peito. Sinto-me num lento arquejar que me lembra os estertores de morte da pequena ave que, caída do ninho, nada pode fazer para evitar o nefasto aperto dos dedos frios da morte. Contudo, não percebo. Nada faz sentido. Porquê? Porquê esta incessante angústia de estar vivo, porquê este moroso arrastar pelo leito viscoso da face oculta da vida?

Cada dia que passa é só mais um, igual a tantos outros. Mesmo aqueles que são preenchidos por agradáveis momentos de diversão e alegria chegam ao fim vazios, inacabados, como uma ostra estuprada da sua pérola por imundas mãos gananciosas. Os vincos do chicote que pende na mão da vida, marcados a sangue vivo na carne, relembram aos nervos apáticos o verdadeiro significado da palavra dor. Será a vida um condor? Um abutre que circunda os cadáveres daqueles que não querem acreditar que a vida os abandonou. Daqueles cuja letargia, outorgada pela descrença e pelo desespero, mantém imóveis e manchados pela ferrugem negra e desvigorada do mais mortificante desalento.

É pois isto estar vivo? Será isto estar morto. Daqui do fundo, onde me escondo, onde o fracasso é mascarado pela indiferença, é já difícil perceber a diferença. Pudera eu cantar. Pudera eu cantar e dançar, como os outros, os que vivem, ou que morrem, lentamente, mas acreditam estar vivos por um segundo. Os que habitam o subtil relâmpago de luz viva perdidos no doce desconhecimento de uma realidade imposta pela escuridão. O que seria da luz sem escuridão? O que seria uma escuridão sem luz? Faria sentido uma vida sem morte? Como teria a morte existência longe da vida?

Durmo. Ou penso dormir, enquanto sonho sonhos que não passam de pesadelos acordados. Os últimos fiapos de uma realidade perturbadoramente estranha esfumam-se ao vento, como o aroma exalado pela última flor de Primavera se deixa esquecer pelo abrasador calor de um Verão prematuro. Prematura é também a madrugada que se levanta vespertina, acordando-me de um sono deslavado, perdido e encontrado por mil vezes por entre as curvas dos lençóis que me torturam com as suaves mãos de uma mulher. O descanso encontro-o de dia, enquanto abafo o cansaço com o inútil alento das ocupações que reduzem a vida a um esquecimento desmedido. Sentido.

Pedro M. Lourenço in "À sombra de uma estrela intermitente"

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