• Pedro M. Lourenço

O albatroz que tinha medo de voar


Bem no meio do oceano Pacífico, longe de todos os continentes, encontramos a ilha de Midway. Vista do ar parece uma pequena mancha verde no meio das águas do mar, como uma esmeralda cintilante no centro de um imenso manto azul em eterno reboliço.

Esta ilha é um dos locais onde os albatrozes vêm a terra para criar os filhotes. Os albatrozes são aves lindíssimas, de barriga e cabeça brancas mas com as costas e asas escuras. Vivem no alto mar, usando as suas enormes asas, grandes como pranchas, para planarem sobre as ondas em busca de alimento. Voam tão bem, rente às ondas, que raramente precisam de bater as asas e percorrem milhares e milhares de quilómetros em cada ano das suas longas vidas.

Em Midway os albatrozes fazem ninho um pouco por todo o lado. Podemos encontra-los nas praias, nas dunas, até no campo de golfe da ilha. Era este o caso do ninho que os pais do Diomède construíram, ali bem perto do buraco número treze. O ovo do Diomède estava já perto de eclodir e a sua mãe não saía de perto dele nem por um momento. Mas quando um jogador de golfe lhe acertou com uma bola em cheio na asa esquerda, a mãe assustou-se e fugiu do ninho por uns instantes.

Foi então que o jogador de golfe se aproximou à procura da bola e, confundindo esta com o ovo do Diomède, pegou no ovo por engano. Quis o azar que o Diomède eclodisse nesse instante, nas mãos do jogador de golfe. Este assustou-se ao ver a pequena ave sair de dentro da sua “bola” e deixou-o cair ao chão.

A mãe do Diomède voltou de imediato e logo espantou o jogador de golfe com um grasnar furioso, acolhendo de seguida o pequeno e assustado Diomède sob as suas enormes asas. Mas o mal já estava feito. A partir desse dia o Diomède ficou com medo das alturas, um problema complicado para um albatroz destinado a passar a vida nos ares.

Diomède cresceu depressa graças às belas lulas que os pais lhe traziam. Em poucas semanas tornou-se também ele um enorme albatroz, quase tão grande como os pais, mas ainda castanho como os outros jovens da colónia. Quem visitasse a ilha por esta altura rapidamente se aperceberia da azáfama que por lá se fazia sentir. Era o primeiro dia de aulas na escola de voo, o dia mais ansiado por todos os jovens albatrozes que iam finalmente aprender a arte do voo. Por todos menos o Diomède, que sempre temera o dia em que teria de enfrentar o seu medo das alturas.

Tal como todos os anos por esta altura, os jovens albatrozes caminharam até um relvado junto ao mar onde o já velhinho mestre Aviónico lhes ensinaria a arte do voo. O Diomède ia com os seus amigos, os irmãos Alba e Troz do ninho ao lado, o gorducho Gaspar que comia tanto que obrigou os pais a pedir ajuda a dois tios e uma prima para o alimentarem, e a bonita Albina que nascera branca como um floco de neve.

Chegados à escola, todos os pequenos albatrozes se alinharam na base da colina à espera do mestre. Todos excepto um espertalhão, chamado Joca, que subiu a uma rocha e tentou voar. Claro que caiu como uma pedra e acabou com o bico enterrado na relva fofa. Foi risada geral entre os pequenos.

Ainda estavam a rir quando chegou o mestre, coxeando ligeiramente da pata esquerda e com um pequeno capacete e óculos de aviador. Começou logo a aula. “Que divertidos que estão os meus alunos. Espero que estejam com disposição para aprender porque tenho muito para vos ensinar”.

Aviónico explicou-lhes que ninguém dominava o voo como os albatrozes e que exigia dos seus alunos a perfeição pois nunca mais queria ouvir uma gaivota gozar com as aterragens atrapalhadas de alguns albatrozes. Sem demoras começou com os exercícios. Primeiro mandou os pequenos darem às asas, depois passou aos agachamentos e às corridas.

No dia seguinte vieram as técnicas de descolagem. Para começar, o mestre Aviónico mandou-os correr. Depois, correram até uma pequena ravina e saltaram enquanto davam às asas, sempre ouvindo o mestre dizer “Força, têm de dar às asas com força!”. Ao fim de uma semana chegou o dia do primeiro voo. Um por um, os jovens correram a colina a descer, sempre a bater as asas e, usando o vento, descolaram. Até o Gaspar conseguiu levantar a barriga redonda uns centímetros acima do solo. O último da fila era o Dioméde...

Chegara a sua vez. O Dioméde respirou fundo e começou a correr. Bateu as asas com toda a força, correu mais e finalmente sentiu que não pesava nada, estava a voar! Então, o susto. Ao ver o chão afastar-se dos pés o Dioméde gritou, fechou os olhos, parou de dar às asas e caiu no chão numa nuvem de poeira.

Ele foi-se embora. Voltou para o ninho a choramingar, triste, a pensar como seria a sua vida como um albatroz que não voa. Depois da aula a Albina e os outros amigos vieram visita-lo para o animarem e foi então que Diomède lhes contou a história do dia em que nascera e ficara com medo das alturas.

Os dias passaram e os pequenos albatrozes tornaram-se peritos no voo. Já sabiam descolar e planar, aprenderam as várias técnicas para aterrar e como usar os ventos para planar sobre as ondas. Só o Diomède ficava em terra, admirando à distância os belos voos dos seus amigos.

Um dia o Diomède caminhava na praia conversando com a sua amiga Albina. “Gosto tanto de te ver voar Albina.”. “Oh, Dioméde. Um dia tens de ganhar coragem para voar. Gostava tanto de voar contigo. Vou ao mar apanhar umas lulas para o nosso lanche e já volto”.

O Diomède ficou em terra a apreciar o voo gracioso de Albina, maravilhado com a forma como ela planava sobre as ondas, como mergulhava para apanhar as lulas. De repente, ela caiu. Uma rajada de vento mais forte obrigou-a a bater com uma asa nas ondas, a asa dobrou-se e ela caiu ao mar. Albina tentou voar, mas a asa doía-lhe tanto. Começou a nadar para terra.

O Diomède estava a ver tudo a partir da praia quando o avistou. Uma barbatana escura apareceu entre as ondas. Era um tubarão. Albina nadava para terra, sem ver o tubarão que se aproximava pelas suas costas. Diomède bem tentou gritar, mas ela não o ouvia, e o tubarão estava cada vez mais perto.

Desesperado, o Diomède tentou a única solução. Começou a correr pela praia, contra o vento como o mestre Aviónico lhe tinha ensinado. Bateu as asas com toda a força que tinha e, mesmo antes de molhar a patas no mar, levantou voo. Nem pensou no medo das alturas e voou como uma flecha em direcção a Albina.

O tubarão estava mesmo perto de Albina e mostrava já fora de água uma boca cheia de dentes. Momentos antes de ele atacar, o Diomède caiu sobre o tubarão como um míssil. Picou-o junto aos olhos e na cabeça, mas o tubarão não desistia. Então, ele mordeu o nariz do tubarão. O nariz é o ponto mais sensível de um tubarão, e este fugiu a sete pés, ou antes a sete barbatanas, e não mais voltou.

Albina estava salva. “Obrigado Diomède, salvaste a minha vida!” Quando os dois albatrozes chegaram à praia muitos dos seus amigos esperavam-nos já. Alguém tinha visto o acto corajoso do Diomède e agora todos o levavam em ombros. Gritavam muito alto “Viva o Diomède, viva o herói da colónia!”

Alguns dias depois, já melhor da asa, Albina foi passear com o Diomède. Ela piscou-lhe o olho e convidou “Vamos voar juntos?” Diomède respirou fundo e desatou a correr. A Albina seguiu-o. Os dois albatrozes voaram para o mar, em direcção ao pôr-do-Sol.

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