• Pedro M. Lourenço

História de um átomo


No início tudo era negro, tudo era escuro. Mais que um vazio, mais que um nada, era uma ausência de existência. O Universo ainda não existia, o próprio tempo não existia. Num ponto de luz, numa infinitésima mácula de cor naquela ausência opressiva, tudo aconteceu de repente. Num instante, o tempo nasceu. Acordou maldisposto e atordoado, mas consciente da sua natureza decidiu a tudo impor a sua pressa. Tanta urgência foi colocada naquele propágulo de Universo que este imediatamente explodiu. Enquanto um diabo esfrega um olho, se é que os diabos já existiam naquele tempo e tinham olhos para esfregar, o Universo nasceu num estrondo de luz e calor. Bang! Um Big Bang.

Ainda os ânimos mal tinham começado a arrefecer e já as primeiras partículas elementares, únicos habitantes deste admirável mundo novo, começavam a juntar-se. Combinavam-se e descombinavam-se, misturavam-se e remisturavam-se, exploravam ansiosamente um sem fim de possibilidades. Nasceram assim os primeiros átomos, exóticos corpúsculos com um pesado núcleo central e uma exuberante cabeleira de frenéticos electrões, incapazes de parar por um segundo para lhes podermos conhecer a localização. Ora quis a sorte, ou o azar, que um desses átomos, chamemos-lhe Antómio, tenha vindo a fazer parte de uma estrela.

Era uma estrela jovem e bonita de uma radiosa cor amarela. Um membro da primeira geração de estrelas que povoara o Universo. Era orgulhosa, como todas as estrelas o são, e dedicava a sua vida a combater o negrume que insistia em preencher o Cosmos. O átomo Antómio gostava de lá viver, era um local quente e aconchegado e companhia nunca lhe faltava pois a estrela era povoada por um número prodigioso de átomos. Mas, afinal, os átomos também têm as suas fraquezas. Viviam para se fundir uns com os outros, animados pelo calor escaldante do núcleo estrelar. Os átomos ali viveram, felizes e contentes naquela vida despreocupada, mas depois de alguns biliões de anos toda aquela frenética actividade efusiva acabou por levar ao colapso da estrela.

Finda a história da estrela, Antómio, assim como muitos outros átomos, vagueou sem rumo pelo Universo. Tudo tinha mudado desde os primeiros dias do Universo. O tempo fizera a sua parte, as estrelas juntavam-se agora em galáxias. Um medo da insuportável solidão que assombrava os vazios negros do espaço parecia governar a evolução do Universo.

Sozinho, com frio e sem futuro, Antómio vagueava pelos vastos espaços astrais, muitas vezes sozinho, por vezes acompanhado por uma fugaz antipartícula ou por apressados fotões. Acabou por ir parar a uma nebulosa, um imenso campo de refugiados para solitários espaciais como ele. Os átomos iam chegando à nebulosa vindos de todas as direcções, e esta foi crescendo e crescendo e crescendo. A nebulosa era bela, a combinação de átomos formava padrões de cores numa paleta de tons ambíguos e misteriosos capazes de apaixonar os corações frios que a olhavam de longe. Era como um poema que vagueava pelo espaço, perseguindo os incautos viajantes espaciais desses dias com imagens de uma beleza perturbadora. Um dia a nebulosa atingiu a massa crítica de habitantes necessária para se tornar algo de ainda mais belo. Alguns átomos fizeram-se estrela, outros originaram planetas, satélites, cometas e asteroides. Haviam criado um sistema solar.

A Antómio calhou o terceiro planeta, mais uma rocha de cristais fundidos, um braseiro incandescente a girar lentamente em redor da estrela a que um dia chamariam Sol. Mas o tempo voltou a fazer das suas. Com o passar dos milénios o planeta arrefeceu e fez-se sólido. Átomos como Antómio combinaram-se com outros átomos, uns iguais, outros diferentes, e criaram a água, um líquido transparente extraordinário que mudaria a face do planeta. Encheram oceanos e encheram mares, encheram lagos e encheram rios, pintaram o planeta de azul. O cenário estava preparado para algo de maravilhoso acontecer.

Os átomos são extremamente irrequietos, é-lhes impossível estar parado por muito tempo. Nos oceanos primordiais o ambiente era perfeito para as experiências alquímicas, os átomos combinaram-se em moléculas capazes de se reproduzirem. Daí até encherem os mares de vida foi um pequeno passo. Algo de novo acordava agora, respirava a sua primeira golfada de ar e gritava a alegria do seu nascimento. A vida, ao contrário das rochas e das estrelas, vivia depressa. Erguia-se e sucumbia num ciclo interminável de morte e nascimento. Os átomos, como Antómio, entraram num carrossel interminável de animação. Antómio foi bactéria e foi alga, e foi bactéria novamente. Foi detrito, foi comida, foi bebida, foi bactéria muitas vezes. Sempre regida pelo compasso rápido da batuta do tempo, a vida evoluía depressa, numa profusão de cores, formas e hábitos. Antómio experimentou mil formas, foi peixe e foi anémona, foi rã e foi medusa, foi escaravelho e foi polvo, foi sequoia e foi rosa, foi carvalho e foi cogumelo. Um dia voava nas asas de uma ave, noutro dormia o longo sono invernal de um urso, por vezes era uma vaca a pastar num prado verdejante, outras vezes uma lula nas mandíbulas de um voraz tubarão. A vida era alegria, era como uma dança e Antómio dançava e rodopiava, tanto que chegava a ficar tonto.

Um dia fez parte de um órgão cinzento, na cabeça de um mamífero com alguma imaginação. Apesar de ser tão analfabeto como todos os outros átomos, foi lá que ajudou a escrever esta história. Não sei o que fez desde então…

Pedro M. Lourenço in "À Sombra de Uma Estrela Intermitente"

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